20091125

versinho unverschämt

ich versuchte es zu kaufen
ich versuchte es zu drehen
es hat mir nichts gebracht

bis zu Ende geraucht
wurden alle Kippen

immerhin

schmecken meine Zigaretten

irgendwie

doch

nicht so gut
ohne deine Lippen

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coisa engraçada
tentei comprar
tentei enrolar
não adiantou nada

até o fim
fumei
todas as baganas
- mesmo assim

meus cigarros
não são mais os mesmos
sem o gosto
dos teus lábios

20091122

eu sou a mísera cantante
insignificante cigarra

e antes que qualquer outra coisa

lhe ocorra

é necessário dizer
que ninguém se importará

caso a cigarra morra

pois ela é apenas
a mísera cantante
e insigficante

cigarra

20091114

estava muito bêbado
para viajar de trem
foi embora de jegue alado
no lombo do além
o super-homem

rimas besta

menina, hoje eu tive um sonho elástico
assim, acordado no meio da rua
sonhei contigo nadando nua
numa piscina de plástico na Lua

menina, acho que isso é amor
que chega assim, e esquenta
ou é esse cheiro de flor
que adentra minhas venta?

um pensamento esdrúxulo
para um amor ridículo
nem bem me mata de tédio
nem bem me libera o ventrículo

menina quem me dera
acabar debaixo da sua ponte
onde comeríamos em lata de goiabada
a nossa refeicao de pedinte

é amor, é sonho, é nada
é cachorro latindo na madrugada
a mais doce ilusao, marmelada
goiabada cascao

menina
só a vida amar eu devo
devo, nao nego
pago quando escrevo

20091108

sombra
é tudo o que sobra

galhos
saltam aos olhos

árvores na noite

desarvoradas

singra
sangra
nessa velha idade

é dura
de ver dade
é dade
de ver dura

me desce uma décima
só pelo gosto
escorre pelo rosto
a triste alégrima

singra
sangra
o coração da verdura

tudo à mingua
ficando velho
em Singapura

menina louca

na boca
açúcar

solta essa língua

doce

até tocar
a nuca

quero um verso absurdo, porém lúcido
que decifre toda uma safra de anos
um verso sóbrio, porém lépido
quero um verso sábio e vagabundo
um verso menosprezado e desdenhado
um verso pedinte e imundo
quero um verso primário e infantil
quero um verso infante, pueril
quero um paradoxo
um verso longo, escrito à lápis
um verso de coxa, escrito à mão
escrito sobre qualquer quina
num pedaco de papel de pão

tomando um café preto

20091031

juzz

lá jazz
aqui cajuzz
quica e reboteia
a luz, a muz
a múzika
do interior da Bahia de todos
nózz

chamem a polícia
lá vem o amanhecer
trazendo sua metralhadora

amei
de forma intensa
e inteira
uma ligeira megera

que quis engaiolar minha alma
e bem que tentara
mas daí

ó

pulei fora!

para uma ignota filha d`Oxum

confluência de rios e ritos
palmas e gritos
tambores e apitos

macia
como a língua do infinito
é a pele
do meu amor mais bonito

deixa eu me melar de amor
que é pra não morrer de tristeza
se é pra morrer, que seja de felicidade
melado até a alma
no caixão da saudade
todos bêbados seguindo uma bandinha
tocando e cantando pro velho Paulo subir
ao som de Vassourinhas

sinta

sinta

a cada gesto
em qualquer fluxo
num silêncio prolixo

se eleva o gosto
que cala o choro
que eleva a prece

abençoados os que padecem
e bravos, sorriem
desafiando todo o percalço

de velhas alpercatas
e sonhos diminutos
em pequenos gestos

se vai gestar o bom incerto
nesse enxêrto brilho
é luz
de algum outro exílio

na beira do abismo
beirando o colapso físico
tremula, seco e tísico
esse velho humor cansado

todas as cores e matizes do princípio
desfiguram-se em cinza, num gesto ríspido
o mar revolto se choca com as pedras
um pensamento perdido, o vento leva

onde estarás, longínqua luz?
talvez, quem sabe, perdida por aí
navegando ao largo por outros indícios

em sinais de fumaça
que não deixam vestígios
senão na boca, este gosto amargo

20091011

solidão dói

dói

e dói de novo

solidão dói

dói, e dói bem
dói bem no ovo

20091003

outono tempo passando

vento de setembro, vem lento
lá se vão os dias, os meses, os anos
em algum canto dessa nossa idade
alguma felicidade espera o ônibus

toda ela, essa

onde está você, linda Iara, minha Janaína?
estará ela tecendo sonhos
cantando cantigas que o mundo esqueceu

ou apenas dormindo em travesseiros outros
que não estes, meus

onde estarás, adorável concubina
amélia amada, puta serpentina

velha, nova, virgem maria
um espanto de delegacia
filha de beleza e graça
minha Euá de amor

venha minha fulô, pro meu regaço
pois que de amor, te amasso
com todo o amar que posso

Apoética poética - Shirley Cara de Convite

Shirley Cara de Convite, despachante do Detran
musa do emplacamento
a rainha dos buchichos e dos grafitos de banheiro
tesão de onze entre dez funcionários do departamento
morenona índia de seus 30 e poucos calibrados
e uma raba de ai meu deus minha nossa senhora
Shirley, convite aberto e também fechado
para todos e para ninguém
tentou Argemiro, tentou Osvaldo, tentou Barriga
tentou Carlito, Arlindo Bigode e Gildo Fudião
ninguém levou Shirley no bico
ele foi com quem quis
e logo Batista, o novo mensageiro
Shirley Cara de Convite
desejada no Detran do mundo inteiro

Apoética poética - Pedaços de carne

Patrícia, Sheila, Graziele e Fernanda
eram meninas baianas de shopping center
foi numa dessas micaretas em Arraial da vida
que as quatro embarcaram de vez
duas capotaram de batida de côco e de carro
as outras duas, cairam na moto dos playboys
que vinham picados logo atrás.

Apoética poética - Nonô Bico-de-Caixote

Nonô Bico-de-caixote
capoeira da ladeira do Sodré
Angoleiro, mestre
alma de Imolé
Nonô Bico-de-caixote
cedo aprendeu que na vida
mais importante que acertar a pancada
é evitar o rebote